domingo, 2 de março de 2014

Continuação. 8 de n.

BH

As duas últimas naus neerlandesas que saíram do Recife com destino a Amsterdã levavam a bordo os derradeiros judeus de Pernambuco, não mais que 20 famílias, 80 almas.
A viagem era desgastante, o sol invadia cada recanto das embarcações, a água era racionada. Os judeus buscavam conforto rezando e planejando o futuro.
– “Assim que chegar à Europa” – diz um – “levanto capital e volto para produzir açúcar em Aruba”.
– “Vou lidar com café” – fala outro – “tenho parentes em Istambul, posso intermediar partidas de café do Egito para as Províncias Unidas”.
Os brasileiros ainda não sabiam, mas a expulsão dos judeus de Pernambuco significaria o fim do ciclo do açúcar; rapidamente, a produção antilhana ultrapassaria a brasileira e quebraria o monopólio português do produto. Pior, nenhuma lavoura prosperaria no país até meados do século XIX. A intolerância religiosa custou-nos 200 anos de atraso.
Depois de uma semana e meia de viagem, na altura da linha do equador, os tripulantes dão o alerta de aproximação de uma embarcação militar vinda do oeste.
– Quem são? Pergunta em castelhano, Manoel Franc ao capitão holandês.
– Não temos como saber, ainda...
Foram ficando progressivamente apreensivos. Judeus e gentios. Depois de uma hora, ouve-se um grito da gávea: – Espanhóis!
Os judeus bateram no peito, deram gritos de desespero, rogaram a D’us por ajuda. Os neerlandeses hesitavam: rendição ou enfrentamento? As perspectivas eram pouco promissoras, experiente, a tripulação sabia que as duas embarcações mercantes não seriam capazes de opor resistência a um vaso de guerra espanhol.

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