terça-feira, 11 de março de 2014

Continuação. 30 de n.

Quando me lembro da figura trágica do Imperador Francisco José, penso que o salmista se referia a ele ao escrever:

(...) Os que se fiam em sua força e de suas riquezas imensas se vangloriam, nem mesmo a seu irmão podem eles remir, nem ao Eterno oferecer resgate por sua morte, pois tão alto é o preço da vida que jamais poderá ser alcançado pelo homem para viver eternamente e não chegar ao sepulcro. Pois se vê que morre o sábio assim como perecem os tolos e insensatos deixando a outros suas riquezas. (...) Não invejes nem temas ao homem que enriquece e alcança glórias, pois ao morrer nem sua glória nem nada mais levará consigo. Embora em vida pensasse “louvar-me-ão pelo sucesso que alcancei” sua alma se juntará a de seus antepassados e não mais retornará à luz. O homem que se engradece e não tem entendimento para seguir os caminhos traçados pelo Eterno, assemelha-se aos animais que perecem e não deixam sequer lembrança (1).

A vida de Francisco José de Habsburgo podia parecer incomparável aos olhos do mundo. Herdeiro de um império, aos 18 anos, ascende ao trono para governar com poderes absolutos 50 milhões de súditos, aos 24, casa-se com a mulher mais bonita de sua época: Elisabeth (Sissi) da Baviera. De início, sua coroação trouxe alguns anos de tranquilidade e progresso para o Império, as glórias do mundo, porém, não passam de “vaidade, pura vaidade” (2).
Francisco José viveu tempo bastante para assistir impotente à erosão e, por fim, ao esboroamento de cada verdade que parecia perpétua e autoevidente a um monarca europeu do século XIX.
No campo militar, começou por perder suas possessões italianas, em seguida, viu-se obrigado a abrir mão – em favor da Prússia dos Hohenzollern – da influência multissecular que a casa dos Habsburgos exercia nos principados alemães. Como prêmio de consolação conservou as demais províncias do império, mas, para manter viva a dignidade imperial, restou-lhe tão-somente disputar os espólios do Império Otomano nos Bálcãs com russos e britânicos. Em Sarajevo, por fim, em 28 de junho de 1914, um atentado terrorista, contra o herdeiro do Império desencadeou a primeira grande guerra mundial na qual Áustria foi derrotada.
A política, tampouco, foi generosa com Francisco José, adepto intransigente de uma concepção de monarquia, que, gradativamente era abandonada pelos povos e pela nobreza, viveu em permanente sobressalto, lutando para manter tradições que não eram respeitadas nem mesmo por seu sobrinho e sucessor, o arquiduque Francisco Ferdinando.
Também o casamento de Francisco José e Sissi foi um fracasso, a imperatriz nunca se deu com a sogra, nem se adaptou à vida na corte imperial, que lhe causava depressão. O filho do casal, herdeiro do trono, morreu (ou se suicidou) juntamente com uma amante, sem deixar descendentes. O irmão de Francisco José, Maximiliano, encorajado pelos franceses participou de uma aventura imperialista no México, onde foi vencido, capturado, julgado, condenado e executado. Sissi também morreu de modo violento, assinada por um anarquista italiano perto da virada do século.
Em 1918, dois anos depois da morte de Francisco José, as potências centrais eram derrotadas na grande guerra e como resultado o Império se esfacelou e a monarquia foi extinta na Áustria. Família, poder, prestígio, concepções políticas, tudo que se relaciona a Francisco José I de Habsburgo virou pó.
Em termos históricos, o tempo que nos separa desses episódios é insignificante, mas é muito difícil, para um homem do século XXI, compreender, por exemplo, a resistência de Francisco José à adoção de uma constituição para o Império. Ele sinceramente acreditava que a sua atuação pessoal, livre de amarras jurídicas, movida exclusivamente por uma inegável noção de honra somada à ética do dever, era mais eficaz, para garantir a felicidade de seus súditos, que um texto hipotético elaborado por pessoas comuns movidas por interesses mesquinhos.
Também parecem incompreensíveis nos dias hoje, as razões que levaram o Imperador a não estar presente à cerimônia de casamento de Francisco Ferdinando apenas porque este escolheu casar-se, por amor, com uma condessa, em vez de unir-se a uma princesa.
Francisco José era um homem bom, dedicado até o limite da abnegação aos negócios de estado, durante seu governo a comunidade judaica do Império foi protegida, a ponto de os judeus de Viena, com evidente exagero,  o proclamarem Rei de Jerusalém; a Providência Divina, contudo, parece tê-lo escolhido para exibir a fugacidade da glória terrena, selá (3).

A figura de Francisco José foi transportada por Walt Disney para o reino da fantasia. No desenha animado Cinderela, o imperador, na minha opinião, é retratado na maturidade com seu inconfundível bigode branco unido às costeletas, pelo rei da história; mas ele é também o príncipe que se casa com a mulher mais bonita de seu tempo: Cinderela (Sissi). No cinema ainda, o conto de fadas de Sissi - ou pelo menos, a parte bonita dele - nos legou dois filmes, nos quais a imperatriz é vivida por uma das mulheres mais bonitas de seu tempo: a atriz Romy Schneider, nascida em Viena.

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(1) Salmo 49.
(2) Eclesiastes (Cohelet) 1,2. Livro atribuído ao Rei Salomão, o mais sábio dos homens.
(3) Pare e ouça.

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