Quando me lembro
da figura trágica do Imperador Francisco José, penso que o salmista se referia
a ele ao escrever:
(...) Os que se
fiam em sua força e de suas riquezas imensas se vangloriam, nem mesmo a seu
irmão podem eles remir, nem ao Eterno oferecer resgate por sua morte, pois tão
alto é o preço da vida que jamais poderá ser alcançado pelo homem para viver
eternamente e não chegar ao sepulcro. Pois se vê que morre o sábio assim como
perecem os tolos e insensatos deixando a outros suas riquezas. (...) Não
invejes nem temas ao homem que enriquece e alcança glórias, pois ao morrer nem
sua glória nem nada mais levará consigo. Embora em vida pensasse “louvar-me-ão
pelo sucesso que alcancei” sua alma se juntará a de seus antepassados e não
mais retornará à luz. O homem que se engradece e não tem entendimento para
seguir os caminhos traçados pelo Eterno, assemelha-se aos animais que perecem e
não deixam sequer lembrança (1).
A vida de Francisco
José de Habsburgo podia parecer incomparável aos olhos do mundo. Herdeiro de um
império, aos 18 anos, ascende ao trono para governar com poderes absolutos 50
milhões de súditos, aos 24, casa-se com a mulher mais bonita de sua época: Elisabeth
(Sissi) da Baviera. De início, sua coroação trouxe alguns anos de tranquilidade
e progresso para o Império, as glórias do mundo, porém, não passam de “vaidade, pura vaidade”
(2).
Francisco José viveu
tempo bastante para assistir impotente à erosão e, por fim, ao esboroamento de
cada verdade que parecia perpétua e autoevidente a um monarca europeu
do século XIX.
No campo militar,
começou por perder suas possessões italianas, em seguida, viu-se obrigado a
abrir mão – em favor da Prússia dos Hohenzollern – da influência multissecular que
a casa dos Habsburgos exercia nos principados alemães. Como prêmio de
consolação conservou as demais províncias do império, mas, para manter viva a
dignidade imperial, restou-lhe tão-somente disputar os espólios do Império
Otomano nos Bálcãs com russos e britânicos. Em Sarajevo, por fim, em 28 de
junho de 1914, um atentado terrorista, contra o herdeiro do Império desencadeou a primeira grande guerra mundial na qual Áustria foi derrotada.
A política,
tampouco, foi generosa com Francisco José, adepto intransigente de uma
concepção de monarquia, que, gradativamente era abandonada pelos povos e pela nobreza,
viveu em permanente sobressalto, lutando para manter tradições que não eram respeitadas
nem mesmo por seu sobrinho e sucessor, o arquiduque Francisco Ferdinando.
Também o casamento
de Francisco José e Sissi foi um fracasso, a imperatriz nunca se deu com a
sogra, nem se adaptou à vida na corte imperial, que lhe causava depressão. O
filho do casal, herdeiro do trono, morreu (ou se suicidou) juntamente com uma amante,
sem deixar descendentes. O irmão de Francisco José, Maximiliano, encorajado
pelos franceses participou de uma aventura imperialista no México, onde foi
vencido, capturado, julgado, condenado e executado. Sissi também morreu de modo
violento, assinada por um anarquista italiano perto da virada do século.
Em 1918, dois
anos depois da morte de Francisco José, as potências centrais eram derrotadas na grande guerra e como resultado o Império se esfacelou e a monarquia foi extinta na Áustria. Família,
poder, prestígio, concepções políticas, tudo que se relaciona a Francisco José
I de Habsburgo virou pó.
Em termos
históricos, o tempo que nos separa desses episódios é insignificante, mas é muito
difícil, para um homem do século XXI, compreender, por exemplo, a resistência
de Francisco José à adoção de uma constituição para o Império. Ele sinceramente
acreditava que a sua atuação pessoal, livre de amarras jurídicas, movida exclusivamente
por uma inegável noção de honra somada à ética do dever, era mais eficaz, para garantir
a felicidade de seus súditos, que um texto hipotético elaborado por pessoas comuns movidas por interesses mesquinhos.
Também parecem incompreensíveis
nos dias hoje, as razões que levaram o Imperador a não estar presente à cerimônia de casamento
de Francisco Ferdinando apenas porque este escolheu casar-se, por amor, com uma condessa, em vez de unir-se a uma princesa.
Francisco José era um homem bom, dedicado até o limite da abnegação aos negócios de estado, durante
seu governo a comunidade judaica do Império foi protegida, a ponto de os judeus
de Viena, com evidente exagero, o proclamarem Rei de Jerusalém; a Providência Divina, contudo, parece tê-lo escolhido para exibir a fugacidade da
glória terrena, selá (3).
A figura de Francisco José foi
transportada por Walt Disney para o reino da fantasia. No desenha animado Cinderela, o imperador, na minha opinião, é retratado na maturidade com seu inconfundível bigode branco unido às costeletas, pelo rei da história; mas ele é também o
príncipe que se casa com a mulher mais bonita de seu tempo: Cinderela (Sissi). No cinema ainda, o conto de fadas
de Sissi - ou pelo menos, a parte bonita dele - nos legou dois filmes, nos quais a imperatriz
é vivida por uma das mulheres mais bonitas de seu tempo: a atriz Romy
Schneider, nascida em Viena.
-/-
(1) Salmo 49.
(2) Eclesiastes
(Cohelet) 1,2. Livro atribuído ao Rei Salomão, o mais sábio dos homens.
(3) Pare e ouça.
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