O império austro-húngaro era, pelo que sei, o lugar de nascimento de minha trisavó Teresa. Curiosamente, por um atavismo inexplicável sempre nutri uma espécie de fascínio por tudo que provinha da Áustria. Ainda pequeno, lembro bem, ouvi uma música que me deixou hipnotizado e da qual eu nem sabia o seu nome, apenas que era assim: "la-ra-la-la-ra-la, tam-tam tam-tam, la-ra-la-la-ra-la, tam-tam tam-tam".
De tanto insistir, minha mãe me levou a uma loja de discos na Rua Nova e comprou um LP de valsas vienenses. A música era "O Danúbio Azul", que eu ouvia, e ouvia, e ouvia na radiola, curtia também "Vinho, Mulher e Canção", a versão oitocentista de "Drogas, sexo e rock 'n roll", mas, não pense o leitor nada de mais, eu tinha apenas 10 anos.
Espiritólica, minha mãe foi a uma reunião de mesa branca, na casa de uma senhora muito distinta que morava em um casarão na Avenida Boa Viagem - Dona Ariadne. Hoje, no lugar da casa, ergue-se um espigão a mais à beira-mar a fazer sombra sobre a praia. Às vezes, eu a acompanhava às sessões e terminava invariavelmente dormindo. É difícil para uma criança participar de rituais religiosos. Abro um parêntese para dizer que quando fiz a primeira comunhão, tive que me confessar também pela primeira vez; lembro de ter sentido grande dificuldade para encontrar algum pecado a ser confessado, por fim, inventei um, e, assim, contei uma mentira. "Meno male" que o pecado tenha sido esse, ainda mais quando vejo a iniciação precoce dos adolescentes do século XXI nas mazelas da vida adulta. Voltando à história, mais tarde, minha mãe me contou que a medium recebera de seu guia duas informações: em outra encarnação, eu fora austríaco, e o meu guia era o espírito de um sábio. Não entendi direito o que aquilo tudo significava, mas me pareceu serem coisas boas.
O império dos Habsburgos no século XIX era uma obra de engenharia política admirável, digno da reconhecida capacidade de articulação política da família, que mantinha laços até mesmo com a casa real brasileira por intermédio de Dona Leopoldina da Áustria, imperatriz-consorte do Brasil. Seus imperadores orgulhosamente ostentavam um emblema no qual se lia AEIOU - "Austriae Est Imperare Orbi Universo", ou "(o destino da) Áustria é governar o mundo inteiro". Ao tempo em que Teresa Brayner emigrou para o Brasil, o Império era governado por Francisco José, o último Habsburgo a desempenhar um papel importante no cenário internacional.
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