domingo, 2 de março de 2014

Continuação. 3 de n.

BH

O que é o marrano? É o filho dos forçados, o vira-casaca, o porco, o outro, o indesejado. Há marranos de nascimento e, claro, de alma, estes últimos, na minha opinião, mais autenticamente marranos que os demais, porque o marranismo é um estado de espírito.
Quando o decreto de Alhambra alcançou os judeus em Sefarad, ofereceu-lhes três alternativas cruéis. 
A primeira era sair do país em quatro meses, sem levar ouro, prata ou joias consigo – os egípcios do Faraó foram mais generosos que os espanhóis. 
A segunda, pena capital, sem julgamento; essa nunca foi, de fato, cogitada; a vida é um bem precioso demais para que um judeu a sacrifique em respeito a um decreto vil, expedido por uma desvirtuada autoridade mundana. 
Restava, por fim, a conversão ao Catolicismo Romano.
Marranos são os que resolveram seguir por esse caminho.
Quantos se converteram sinceramente? Difícil acreditar que algum. Por que deveriam? Que valor pode ter uma conversão forçada? Além do mais, um judeu nunca deixa de ser judeu; para preservar a vida, é permitido até mesmo violar alguns mandamentos da Torah (1): trabalhar no Shabat (2), participar de cerimônias religiosas com os goym (3), não fazer cashrut (4), e outras mais, exceto negar a D’us (5).
Não foi pedido a nenhum marrano que negasse o Eterno - isso era uma impossibilidade lógica para a autoridade eclesiástica -, mas os conversos, os judaizantes, os anussim (6), podiam ser alcançados por muitos outros meios e motivos, o amor por Sefarad lhes custaria caro, extremamente caro.
Corajosos ou temerários? podemos nos perguntar. Sabiam que seriam rebaixados, humilhados, investigados, perseguidos e mortos em autos-de-fé? Certamente não.
Não eram covardes, tampouco, insensatos talvez, por se apartarem de Am Yisrael (7), por voltarem as costas à porta que Hashem abriu para eles por intermédio de um autêntico Tsadik Goym (8), o sultão Bayezid II, o homem mais poderoso do tempo.
A maioria dos sefaradim que deixou o reino católico foi acolhida pelo Império Otomano, principalmente em Salônica e na capital imperial, a grande metrópole de dois continentes, Istambul. Isso me levará, no momento oportuno, a falar da família Brayner (ou Brainer ou Brajner), mas não ainda.
O marrano, por tudo isso, é um fóssil, uma forma mineralizada à espera, queira D’us, de restauração, como canta o Salmista: “Restaura minha alma” (9).

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(1) Os cinco livros de Moisés, ou mais genericamente a Bíblia Hebraica. Também pode ser entendida com a Lei.
(2) O sétimo dia da semana.
(3) Gentios.
(4) Alimentos puros que podem ser comidos.
(5) O nome do Eterno é tão sagrado que não pode ser usado em vão.
(6) Outro nome dado aos marranos.
(7) Povo de Israel.
(8) Justo entre as nações.
(9) Salmo 23, 3.





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