quarta-feira, 5 de março de 2014

Continuação. 25 de n.

Durante o carnaval, para alegria de S, que sempre quis ter uma família grande, recebemos uma prima em Curitiba. A cidade se disfarçou para recebê-la, depois de uma semana de chuva e frio (para padrões nordestinos), fez sol e calor, tempo perfeito para passear pelos parques. Assim que M seguiu para Foz do Iguaçu, porém, Curitiba voltou ao normal, muita chuva e um pouco de frio em pleno verão...
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Aproveitamos o feriado para ver dois filmes não "block buster": "A grande beleza", de Paolo Sorrentino, e "Balada de um homem comum", excelente tradução para o português de "Inside Llewyn Davis" dos irmãos Coen.
Ambos tocam, em momentos diferentes (e com objetivos diferentes), na tormentosa questão: o que é arte? 
Recomendo aos que não assistiram aos filmes que deixem esta leitura para mais tarde, sob pena de eu estragar parte da graça dos dois, mas insisto: vale a pena sair de casa para vê-los
Em "A grande beleza", o personagem principal, Jep, é um grande artista que se deixa consumir pela vacuidade da vida social de uma grande cidade - Roma. Consciente das circunstâncias que o envolvem e modelam, o personagem vagueia, cínico e enfastiado, por festas e situações felinianas, conformado em gozar o que a vida pode lhe oferecer de bom. Às vezes, trabalha como repórter de cultura. Na cena que me interessa, é escalado para cobrir um espetáculo alternativo e entrevistar a artista performática. Durante a conversa, sucessivamente, a moça não consegue responder a nenhuma das perguntas formuladas por Jep,  exaspera-se ao ver desmascarada a farsa que representa, e passa a desqualificar o interlocutor, supostamente incapaz de perceber o seu talento. Um corte e Jep reaparece ao lado da editora - de quem é amigo - rindo da pretensão da "performer".
Já em "Balada de um homem comum", Llewyn Davis pensa que é um grande artista. Ele despreza todos que não cultuam a estética do sórdido. Desdenha especialmente de nós, os não-artistas. Seu habitat é um mundo particular onde viceja o orgulho de se saber artista, somado ao desejo  de ser reconhecido como tal,  e no qual fermenta o rancor pela demora desse reconhecimento.
Davis não tem a sorte de ser entrevistado por Jep, ele tropeça em suas limitações durante uma apresentação para um empresário de Chicago que, após ouvi-lo cantar, sepulta qualquer pretensão de sucesso (tão desprezado e tão desejado) com uma só frase: "não vejo como tirar dinheiro disso". 
Moral da história: é possível ganhar dinheiro com arte, e igualmente possível faturar em cima de pseudo-arte, para desgraça de Davis e da performer, porém,  o que não se consegue é transformar o nada em dinheiro...

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