segunda-feira, 3 de março de 2014

Continuação. 22 de n.

Tão profundo e duradouro foi o rancor que minha mãe devotou à sua família que ela retirou os sobrenomes - "Santa Cruz" e "Neves" - de seus documentos de identidade. Certa vez, ela me contou como conseguiu tal proeza apesar da desconfiança da burocracia em circunstâncias como essas.
Ao que parece, ela precisou de uma segunda-via do RG quando já morava no Recife; ao chegar na secretaria de segurança pública com sua certidão de nascimento, um funcionário chamou sua atenção para o fato de que, em vez de ter sido registrada corretamente, alguém, muitos anos antes, por engano, tinha escrito algo como:

"(...) Nesta cidade de Monteiro na Paraíba, aos 18 de junho de 1930, nasceu a criança do sexo feminino
MARIA ZÉLIA
filha de
OSCAR FEITOSA NEVES e
MARIA AUGUSTA SANTA CRUZ NEVES.
(...)"

Minha mãe não percebera o detalhe até aquele momento, fez questão, porem, de ser registrada com o nome que constava na certidão. E conseguiu. Desde aquele dia, seu nome é simplesmente Maria Zélia, o que sempre gerou para ela (e para mim) o embaraço de responder à pergunta: "Zélia de quê?".
Algumas vezes o interlocutor duvidava e pedia para ver algum documento de identidade, o que, para minha mãe - acho - era sempre um momento de satisfação. Quanto a mim, preferia dizer que era sobrenome de origem italiana, mais fácil do que explicar a história toda.
E qual seria a origem tanto ressentimento? Eu nunca soube e, agora, nunca mais saberei. Teria sido uma banalidade como a que levou Lilipute e Blefuscu à guerra? Só D'us sabe. Acrescento apenas ao aforismo da Aslam, um segundo, de natureza cabalística: "a ninguém é dado lembrar o que não está escrito".

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