Continuação. 5 de n.
BH
Faz uns 2 anos, uma querida prima próxima, que vive distante, H*, com quem não falava há muito, muito, tempo, me deu uma notícia inesperada: não éramos marranos (pelo menos não apenas marranos), mas Yíddiches!
- Como é possível? - Perguntei desconfiado.
- Temos uma tataravó judia, um primo fez um levantamento genealógico e descobriu!
H retornou à religião judaica, quanto a mim (e com isso explico o conteúdo dessas mensagens), essa possibilidade sempre esteve no horizonte, minha mulher e, portanto, meus filhos são judeus.
Caso não saiba, caro amigo, a Yidishkeit, a judeidade, é transmitida neste mundo por linha materna. Certamente, deve haver discussões intermináveis e explicações profundas no Talmud (1) e no Zôhar (2) sobre o porquê do estatuto – dois judeus, três opiniões...
Acho mais fácil pensar no dito: “mother’s baby, father’s maybe”.
Desde o telefonema de H - e das mensagens que ela me enviou depois – nunca deixei de me perguntar: Teressa Brayner? Esse era o nome judaico de minha trisavó.
Mas...eu nem sabia escrever seu nome: Teresa ou Theresa? Brayner, Brainer ou Brajner? Tudo que sei é que Teresa Brayner foi uma judia que chegou ao Brasil na segunda metade do século XIX, provavelmente, pelo porto do Recife, a antiga Mauritstadt, com passaporte austríaco.
Esse fato dificulta bastante o resgate do passado; o Império dos Habsburgos, naquela época, se estendia da Itália à Ucrânia, abrangendo, o que, hoje, são dez países nascidos dos escombros da 1ª. Guerra Mundial.
Teresa – pelo que apurou o primo – foi até Caruaru e de lá a S. Caetano da Raposa, onde se casou com José Gomes dos Santos, depois de adotar o nome católico de Honorata Acelina de Jesus.
Não posso garantir que José dos Santos era marrano, mas sou bem capaz de apostar que sim. Os conversos faziam questão, mesmo 200 anos depois do fim da Inquisição, de se mostrar mais católicos que os católicos – era preciso. O nome “de Jesus” é um apenas indício, claro, nada mais do que isso, mas...destá, em outra ocasião, falo mais a respeito.
Tomo a liberdade, agora, de plagiar um estilo bem conhecido: Teresa gerou Joana Amélia que gerou Maria Augusta que gerou Maria Zélia, minha mãe.
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*Omitirei o nome de todos os vivos dessa história.
(1) Livro de doutrina teológica judaica que consolida as discussões travadas pelos rabinos em Jerusalém e na Babilônia.
(2) Livro fundamental da Cabalah.
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