BH
Alheio às aventuras de seus amigos e vizinhos que voltaram para Amsterdã, o marrano se acostuma a conviver com o medo, não com pessoas.
Paradoxalmente, é capaz de enormes temeridades, o criptojudaísmo, naturalmente, é a maior delas. Como poderia passar pela cabeça de alguém, reconhecidamente judeu, a hipótese de que uma súbita mudança de crença, em momento de particular atribulação, pudesse vir a ser confundida pela Igreja Católica com uma conversão genuína? Como acreditar que conseguiria continuar a cumprir as Mitzvot (1), cumuladas agora com os sacramentos da nova fé? Como pensava identificar, doravante, os membros de casa de Israel?
A explicação a tais indagações é dada por outro sentimento que todo marrano carrega consigo: a autossuficiência, e, nos casos mais agudos, a prepotência.
De imediato, foi preciso aprender o catecismo: decorar as orações católicas (em latim), a ordem do rito canônico, os momentos de se levantar e de se sentar.
Demonstrar respeito, agora, exigia tirar o chapéu, em vez de colocar o solidéu.
A língua não era um grande transtorno, os marranos dominavam o ladino, que lhes permitia se comunicar em português, castelhano e catalão. Alguns conheciam um pouco da língua dos batavos, que se parece com a dos askenazim. Outros falavam francês, todos sabiam um pouco da Lashon Kodesh (2) – o hebraico.
Mais difícil era não se trair em público demonstrando desconhecimento a respeito dos sinais exteriores da nova religião. Como se benzer? Quando se persignar? Pior que tudo, sendo agora um gentio, como se relacionar com os demais gentios?
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(1) Mandamentos. Na Religião judaica há 613 mandamentos.
(2) Língua sagrada.
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